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segunda-feira, 24 de junho de 2013

A família e a construção do racismo

             Olá leitores, depois de muito tempo sem postar e com muita saudade disso, confesso que passei  por algumas experiência agradáveis e outras muitas lamentáveis, a mais absurda aconteceu na noite de ontem. Lá vai mais um relato:

                Chegava eu, junto a esposo e pais, na casa de familiares em uma região atingida por um racismo ambiental sem precedentes quando, ao chegar à casa, na tentativa de cumprimentar um familiar, ele que estava deitado na rede, olhou pra mim e simulou um susto, se jogou no chão e começou a rir, dizendo que havia se assustado com o meu cabelo , cabelo que eu trago sempre black, como você bem sabem.
                Eu fiquei indignada, havia aproximadamente 15 pessoas na casa, todos ficaram quietos, não sei porque se indignaram ou se porque compactuavam da atitude do rapaz racista. Como eu estava de carona, não pude simplesmente me virar e sair, o que deu pra fazer foi virar as costas depois de dizer-lhe: “seu racismo me enoja” não sei se adiantou muito, logo mais vi pessoas fazendo piadinhas sobre cor de pele e textura de cabelo, mais uma vez.
                Já contei em texto anterior que eu alisei os cabelos por seis longos anos, que na ausência de chapinha passei ferro nos cabelos, que fiz progressiva e permanente, pois bem, depois do relato de hoje, acho que não é difícil entender porque tantas meninas, assim como eu, sedem à ditadura do liso, é muito mais que cabelo alisado, é aceitação social, ascensão social, é esquiva da tortura de perguntas e comentários racistas como esse. 
                Ainda ontem eu escutei perguntas como: você não penteia o cabelo? As pessoas não te zoam por causa desse cabelo? Porque você não prende? Há uma coisa que eu não consigo entender: por que é que o meu cabelo incomoda tanta gente? Alias, a gente entende, mas não dá pra aceitar, o que eu faço com o meu corpo, com a minha aparência, com o meu cabelo, diz respeito exclusivamente a mim. Enfim, na despedida, o mesmo rapaz racista do princípio do relato me disse: vou esperar você e o Felipe (meu esposo) na minha casa viu?!  Oi? Como assim eu te espero na minha casa? Acho que isso é o que mais me incomoda, o racista pratica o racismo e o trata com naturalidade, como se o outro, o negro, não se ofendesse, como se o seu racismo tivesse que ser aceito sem reservas. Bem galera, esse texto foi mais um desabafo mesmo, sei que muitos de vocês passam por situações semelhantes diariamente e sei o quanto é difícil resistir. Mas mantenhamos a nossa cor vibrante e o nosso cabelo volumoso, afinal, não dá pra resolver o problema com pente ou alisamento, não dá pra tirar a melanina, não dá pra deixar de ser preto
. Beijos a todos.

5 comentários:

  1. Já passei por várias situações como essa, admiro sua coragem de ter falado o que você pensava na cara dele ^^
    quando isso acontecia comigo eu ficava quieta mas hoje não levo mais desaforo! Nós não devemos deixar esse tipo de pessoa falar o que pensa a respeito de nossos bebês ou de nossa pele, isso é um absurdo... o engraçado é que quando nos defendemos eles é quem são as vítimas.... '-'

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    1. Como queria ter essa coragem de responder na cara!

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    2. Isso é sério né, eu por muito tempo me calei também, no entanto, nada mudava a minha volta, mesmo por isso comecei a mudar a tática, apesar de situações como essa, percebo que a incidência diminuiu bastante, acredito inclusive que isso não se dê por medo da minha resposta, mas por perceber o quão sem sentido são esses comentários...

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  2. Caramba, Grazi, eu estava pensando exatamente isso outro dia. Acho que o preconceito começa e termina na família. Eu, mesmo sendo preta e filha de pretos, enfrento discriminação com o meu cabelo na minha própria casa!
    Estou escrevendo um texto sobre o assunto, você se importa de eu usar o seu post?

    PS.: adorei seus óculos na foto, chique demais...

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    1. Triste isso né Belinha, acredito que o principal fomentador de racismo está sim na família, não digo que isso se dá de maneira consciente, mas digo que se dá de maneira muito truculenta. Quando ao uso do relato, sinta-se a vontade para usá-lo, quando mais pessoas forem atingidas por ele melhor.
      PS.: Obrigada por reparar nos óculos...

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