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terça-feira, 25 de junho de 2013

Onde está o negro? Arte da pichação.

             
 Oi galera, trouxe essa foto que foi feita ontem pela querida Vera Botelho na Universidade Federal de Mato Grosso, Campus Universitário de Rondonópolis, esses dizeres, dentre outros, apareçam nas paredes do bloco de psicologia no dia 20 de junho, quinta feira, o que causou um grande reboliço no Campus, muita gente dizendo que pichação é vandalismo, que é depredação do espaço público e que aquilo não se faz, vamos refletir sobre isso...
                Um grande defensor da pichação foi o grande pensador Paulo Leminski, ele, sempre que via uma parede vazia, dizia que aquilo lhe provocava muito desconforto, Leminski nos diz que a pichação nada difere de outras formas de arte, como o grafite, por exemplo. Se observamos a história das pichações nos daremos conta de que ela é uma arte de luta, isto é, a pichação sempre grita algum anseio, sempre denuncia algo, sempre propõe uma discussão e é uma arte muito vista em comunidade pobres e locais públicos, o que me parece muito pertinente, uma vez que em lugares pobres a incidência de descaso, racismo, homofobia e violência para com a população é gritante, em se tratando de prédios públicos a manifestação também costuma ser coerente, uma vez que os gritos expressados nas paredes pedem atenção, pedem postura do poder público, exigem uma reflexão sobre aquilo que está escrito ali.
                Não preciso dizer que eu sou defensora da pichação, afinal, sou defensora de toda forma de arte. Quando alguns colegas e mesmo a administração da Universidade nos diz que aquilo é depredação, eu de fato não consigo compreender, uma vez que nada foi destruído, nada foi impossibilitado de uso, não foi estragado, o que há na verdade é um incômodo gerado pela provocação da reflexão causada nos transeuntes do local, incrível as pessoas dizerem que verba será redirecionada para que se repinte as paredes pichadas, eu me pergunto: repintar por que? E outra, como contemplou o querido Góes: as pessoas acham que a universidade tem um orçamente de 300 reais e aí olha pra o dinheiro e pensa, será que eu contrato um professor ou será que eu pinto a parede? Achei a colocação muito bem feita, a Universidade tem planejamento, nenhum dinheiro é simplesmente redirecionado, a universidade deveria sim incentivar o processo criativo, no entanto, o nosso pró-reitor comentou que teme que as pichações se espalhem por toda a universidade, que é assustadoramente unicolor.
                Quando vi os dizeres da foto acima, fiquei muito feliz, afinal, onde está o negro que deveria compor 70% dos estudantes universitários federais? No curso que frequento, por exemplo, pessoas como eu (pretas)são exceção, a psicologia é uma ciência branca ainda, assim como a maioria dos curso de nível superior, acredito que o autor da arte tenha se incomodado com essa discrepância de cor na Universidade e decidiu expor sua indignação.

                Estava eu a refletir, a psicologia do campus está defasada, estamos com uma carência imensa de professores uma vez que contratos não foram aprovados e renovações não estão sendo feitas. A reitoria da Universidade, até então, não havia se manifestado sobre a defasagem, no entanto, há boatos de que ontem, um senhor da administração da sede da Universidade, tomou um avião e veio à Rondonópolis discutir a situação do curso porque temia o que estaria sendo dito pelos estudantes através das paredes do bloco. Me digam vocês, a pichação não é mesmo uma grande provocadora de mudança? Professores tem tentado estabelecer diálogo durante todo o tempo, mas foi só quando a arte foi feita que alguém decidiu escutar, por isso, gostaria de deixar aqui meus parabéns e minha gratidão para os artistas que estão se expressando sem medo da criminalização e da desonres do sistema. Me sinto representada pelos dizeres e espero que eles sejam proliferados.
Dicas de acesso: Dica 1, Dica 2

Um comentário:

  1. É triste ver que pessoas na Universidade ainda assim têm uma visão tão alienada e míope.

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